Publicado por: sadeckgeo | fevereiro 15, 2011

Zonas de risco a alagamento em Belém

Todo início de ano, principalmente nos períodos mais chuvosos ou naqueles em que as marés são mais altas, ou pior, quando os dois períodos coincidem, a população belenense sofre com os recorrentes alagamentos nas áreas mais baixas, conhecidas como várzeas. No entanto, são vários os fatores que contribuem para o agravamento deste caótico cenário urbano, entre eles, a falta de consciência ecológica ou mesmo de educação da população em geral, assim como atividades de engenharia ineficientes.

As características físicas e naturais da cidade de Belém também favorecem as enchentes. Um exemplo disso diz respeito aos seus aspectos topográficos, pois grande parte do seu território encontra-se em áreas rebaixadas, apresentando, portanto, baixas altitudes em relação ao nível do mar. Sua rede hidrográfica é outro aspecto relevante, visto que apresenta uma rica rede de drenagem urbana, a exemplo da Bacia do Una e da Bacia do Tucunduba, que cortam uma quantidade significativa de bairros da cidade. Somado a esses fatores naturais, tem-se, ainda, o elevado índice pluviométrico, que se encontra em torno de 360 mm por mês, inflamado por um sistema de drenagem ineficiente e sucateado, incapaz de escoar toda a água precipitada.

Todavia, para que se possa ter um melhor entendimento das causas destes eventos, não é prudente restringir-se apenas aos aspectos naturais. Uma vez que, esses acontecimentos estão intrinsecamente ligados ao processo de formação sócio-espacial da cidade de Belém, marcado pela segregação e exclusão, onde as populações que não tinham acesso às áreas centrais acabaram sendo “empurradas” para as áreas mais baixas (várzeas).

Essas ocupações, geralmente, irregulares, foram realizadas ao longo das margens de rios e igarapés presentes na malha urbana de Belém, engendrando, assim, novas modalidades de uso do solo que, paulatinamente, provocaram intensas alterações nas características naturais, como a retilinização, o assoreamento e o aterramento dos rios. As figuras abaixo exemplificam áreas de constantes alagamentos nos períodos chuvosos em Belém.

Fotos dos principais jornais da capital

Com a intensificação do processo de urbanização e expansão para outras áreas, como a Avenida Augusto Montenegro, a rodovia BR – 316 e as ilhas no entorno de Belém, houve uma transformação progressiva do ambiente natural da cidade, fato que contribuiu para o aumento das áreas sensíveis aos alagamentos, conforme mostra a figura abaixo.

loca_alag

Atualmente, a paisagem urbana de Belém é marcada pela presença de construções em áreas que, em função das condições naturais, não deviam ser habitadas segundo a lei de terreno de marinha (art. 2º do decreto-lei nº 9760, de 05.09.1946), o que, conseqüentemente, contribui para o agravamento das inundações, pois os leitos dos rios passaram a ser alvos do despejo de resíduos sólidos e líquidos.

Desta maneira, ao levarmos em consideração a conexão entre estes fatores não fica difícil compreender e reconhecer os principais responsáveis pelas recorrentes cenas de alagamentos que afetam constantemente a cidade de Belém.

Nesse sentido, objetivando realizar o mapeamento das áreas propensas naturalmente a estes fenômenos, gerou-se, através de uma metodologia básica, um “Mapa de Riscos a Alagamentos”, levando em consideração as altitudes da cidade de Belém. Para isso, foi obtida a imagem da missão SRTM (Shuttle Radar Topography Mission) de 90 metros de resolução espacial (RE) e 16 metros de resolução altimétrica (RA), sendo interpolada como os dados do levantamento topográfico feito em 1998 pela CODEM, obtendo-se assim 30 metros (RE) e 10 metros (RA), o que nos possibilitou definir o limite da área de risco ao alagamento de uma forma mais real.

Para que a tomada de decisão seja a mais precisa possível extrapolou-se a cota máxima de inundação para 8 metros. Isso nos diz que de 0 a 8 metros de altitude pode ser alagado, dependendo das intempéries. Nesse ensaio, para definir maior ou menor risco, não levamos em consideração, no entanto, fatores sócio-econômicos, de saneamento, pluviometria e outros que serão abordados em estudo mais completo.

O resultado é mostrado nas figuras abaixo, em que é possível visualizar o limite territorial da cidade de Belém. As manchas vermelhas representam as áreas propensas naturalmente a alagamentos e as manchas vermelhas cortadas por linhas pretas, indicam as áreas sujeita a alagamentos por bairro da cidade.

Por meio da espacialização das áreas vulneráreis a alagamentos, pode-se perceber que elas estão localizadas majoritariamente nas áreas correspondentes a primeira légua patrimonial da cidade, como também, nas áreas próximas a terrenos de marinha. A tabela abaixo mostra os 10 bairros mais sujeitos a alagamentos na cidade.

Conclui-se, portanto, que para que as políticas públicas sejam eficazes, é fundamental que as autoridades públicas considerem as peculiaridades e particularidades naturais da cidade, remanejando as pessoas das áreas propensas aos alagamentos, além de investir na educação ambiental, visando diminuir a quantidade de despejo de lixo nos rios e igarapés de Belém e trabalhando uma engenharia mais inteligente, que não só mude o local de alagamento.

Belém já devia ter em uma de suas secretarias um sistema gerenciador de recursos hídricos, que tivesse a função de prognosticar escassez de água, degradação de corpos hídricos, áreas de alagamento e outros problemas pertinentes, para uma tomada de decisão mais eficaz. E aqui é importante lembrar a complexidade do problema que envolve um enorme numero de variáveis. Puxando a sardinha para o nosso lado, um SGI (Sistema Geográfico de Informação) bem estruturado poderia ter essa condição de prognosticar.

Por: Arleson Souza / Laryssa Tork / Luis Sadeck


Respostas

  1. Grande Sadeck

    Excelente artigo. De forma simples conseguiu mostrar que é possível e viável detectar áreas de risco.

    Infelizmente para as prefeituras nada disso é considerado e depois vemos desastres como na região serrana do RJ acontecerem por que faltou o minimo de atenção à estudos previamente efetuados.

    Parabéns pelo texto e boa semana.

    • Amadeu,

      Obrigado pelo comentário!
      Nossos gestores realmente precisão ler os relatórios técnicos para que não haja mais desastres… O mais engraçado é que nem precisa ser um documento de 1000 páginas, pode ser um breve alerta, que já ajudaria e ajuda a preservar vidas.

      Um abraço.

  2. Muito legal seu artigo Sadeck, entretanto, gostaria de fazer alguns comentários que acho importante ser analisados. Primeiramente, a escolha de uma cota acima do nivel médio da maré nos últimos anos deveria ser levada em consideração e também verificar a tendência das variações e a escolha de 8 metros me parece muito alta, isso parece mais uma transgressão marinha do que uma enchente provocada por chuvas. Acho que não cabe usar esses valores para análise temos que verificar os registros históricos das marés em Belém. Lembrando que Belém está localizada numa baía, e como tal tem livre conexão com o Oceano Atlântico o que dificilmente poderia permitir uma inundação com 8 metros de diferença. Outro fator não tratado no texto está relacionado que a ocupação das planícies de inundações dos rios e igarapés na RMB além de ser irregular também faz que a urbanização com seus concretos e asfaltos diminua a permeabilidade do solo gerando a cada chuva uma maior disponibilidade de águas pluviais escoando superficialmente e por sua vez os canais dos leitos normais de escoamento já não dão vazão para a nova carga de água agora escoada. Valeu

    • Valeu Jamer,
      Na verdade esse é só um primeiro ensaio sobre a temática. O artigo final será publicado em revista pertinente ao assunto elevará muitos outros fatores de risco (impermeabilização do solo, condições sócio-econômicas, obras de infra-estrutura, saneamento básico, lixo e outros), que ainda não aparecem nesse, e que nos ajudarão a classificar o grau de risco dentro dessa área que vai até a cota de 8 metro. É claro que alguns erros ainda aparecem em nossas avaliações, como por exemplo a tabela de porcentagem, que precisa passar por ajustes.
      Ainda esperamos poder fazer um apanhado geral da lei de terreno de marinha.
      Obrigado pelo seu comentário, é assim que a coisa evolui! Para o trabalho completo levaremos em consideração suas observações.

  3. Sadeck,

    Sem querer abusar (mas já abusando, hehe), será que seria possível você detalhar um pouco como determinou as áreas atingidas (ferramentas, etc)?

    abraços

    Cassio

    • Cássio,

      Tudo foi feito no ArcGIS, basicamente usando a Spatial Analyst… mas não entendi perfeitamente sua duvida, então vou explicar de forma genérica.

      1- Obtenção do SRTM e dos vetores (drenagem, bairros, logradouros e curvas de nível);
      2- Usando a Spatial Analyst foi feito uma interpolação spline dos dados extraídos do SRTM com as curvas de nível;
      3- Do resultado foi recriado o layer de cotas;
      4- Foi criada uma consulta para obter os valores de 0 a 8m;
      5- Com isso, foi vetorizado para geração das áreas;

      Lembro que essa é a metodologia para o ensaio (idéia inicial do estudo) e que posteriormente usaremos a Álgebra de Mapas para a geração das áreas de risco com o respectivo grau de risco a alagamento.

      Espero ter respondido e não ter esquecido de nada. rs
      Vou ver se tiro um tempo para criar um tutorial sobre.

      Um abraço.

      • Sadeck,

        Era isso mesmo que eu queria saber!

        Estamos fazendo um trabalho semelhante aqui em Blumenau (no ceops.furb.br ) e estou vendo qual seria a melhor forma de fazer. Estamos usando um levantamento topográfico feito pela prefeitura e tentando gerar os DEMs a partir dele. (obviamente que não é a melhor forma, mas é o que temos por enquanto)

        Vou aguardar ansioso seu tutorial. Creio que vá me ajudar muito.

        abraços e parabéns pelo trabalho!

  4. Fala Sadeck. Muito bacana esse artigo que está sendo organizado por você, o Arleson e a Laryssa. Dá uma verificada nos toques do James e na dissertação do Flavio Altieri que fez toda uma metodologia de mapeamento de área de risco de inundação em Belém. Creio que vai de grande ajudar no seu artigo final.
    Um grande abraço irmão.

    • Fala Marcos,

      Então, Na tese do Flávio ele usa só a bacia do canal da Quintino, mas está muito boa, ela já faz parte das nossas referencias, porém estamos tentando ir além na pesquisa e ver outros fatores que possivelmente contribuam para aumentar o risco de determinadas áreas. Na verdade ainda não vi o programa que ele desenvolveu, mas acredito que não leve em consideração fatores sócio-econômicos por exemplo.
      Vou procurar o Flávio para conversarmos mais sobre o assunto durante a pesquisa e juntar forças para desenvolver algo que ajude a prevenir maiores estragos.
      Além disso, acho que um ponto crucial para essa discussão são os terrenos de marinha, que ainda precisa ser aprofundado em nossas pesquisas.

      Obrigado!

  5. Parabéns pelo artigo, muito importante e de grande utilidade pública. Quando públicar não esqueça de mandar o link para eu ler este na íntegra. Este Blog é DEZ!

  6. Olá Sadeck, muito bom o artigo!

    O Alexandre na UFES já fez algo parecido também, ele utilizou as variáveis: uso da terra, declive, altitude, solos e pluviosidade. Muito interessante seu artigo, depois divulgue a versão final, e, a idéia do tutorial é sempre bem vinda.
    Grande Abraço,
    Walbert

    • Caro Walbert,

      Obrigado pelo comentário.
      Você tem o estudo desenvolvido poelo Alexandre ou o contato dele para que possamos apreciar o trabalho e servir de referência ao nosso?
      O Osvaldo já está providenciando o tutorial, assim que possível postará.

      Um abraço.

  7. Olá Sadeck,

    Só não entendi porque você está dando tanta ênfase a terreno de marinha, pois não vejo como isto pode influenciar no seu trabalho.

    Abraços,

    Sérgio

    • Caro sergio,

      Terreno de marinha será usado para proposta de planejamento e nesse caso estou conversando com o prof° Paraguassú, que é grande conhecedor da área e já me deu muito boas idéias…
      Quando o trabalho estiver completo e publicado podemos conversar mais sobre.

      Um abraço.

  8. O professo alexandre e um cabra bom …http://www.mundogeomatica.com.br/

    eu fui aluno dele e sou testemunho do seu conhecimento..

  9. Prezado, Prof.

    Sou hidrologo e gostaria de parabenizar pelo trabalho.
    Se possível, que disponibilizasse seu artigo final no Blog.

    Duas recomedações:
    a) Não seria melhor “comprar” a topografia na codem?
    Sabemos que a SRTM não tem precisão suficiente para áreas urbanas (graças a sua resolução de 90m) e a CODEM vende as informações nesse link:
    http://servicos.belem.pa.gov.br/index.php?Itemid=159&id=79&option=com_content&view=article

    b) Concordo com os colegas que a cota de cheia deve ser diminuida para 4m.
    Fiz um levantamento de maré de 10 anos (2002-2011).
    E a cota máxima foi de 3.9m.
    Como são dados da marinha, disponíveis na internet, não teria nenhum problema em repassar a planilha já organizada (Porto de Belém e Ilha de Mosqueiro)

    • Olá David Lopes,

      Agradeço as considerações. Então, nós prevíamos até o fim do ano para finalizarmos esse artigo, mas tivemos alguns atropelos ótimos. O Arleson e a Laryssa entraram como alunos especiais do Mestrado e isso tem consumido um bom tempo dele, além disso estamos cheios de atividades no trabalho, mas não desanimamos não, assim que houver uma brecha na agenda esse será prioridade.

      Levando em consideração suas recomendações:

      a) – Nós temos a base vetorial da CODEM (2m), faremos o DEM a partir dela para o artigo final.

      b) – Vou tentar explicar, a cota de alagamento é 4m, mas para efeitos de segurança e para que a tomada de decisão seja a mais precisa possível, extrapolou-se a cota máxima de inundação para 8 metros. Já entramos em contato com a marinha para obtermos os dados de aproximadamente 30 anos, por falar nisso, obrigado ao Cesar Diniz pelo contato e suporte no processo de análise.

      Em suma, estamos tentando nos organizar para finalizar o artigo, mas estamos com dificuldade de encontrar tempo, se tiver alguém interessado em contribuir, entrem em contato. Nós agradecemos.

      Obrigado pelas considerações David, se você se interessar em nos ajudar a fechar esse artigo, entre em contato.

      Um abraço.

  10. o assunto é importante, o que mata é o português pobre, e só corrigindo “assim como atividades de engenharia ineficientes.” na verdade engenheiro executa, a responsabilidade por decisões e planejamento relacionadas a cidade cabem ao urbanistas.
    mas ate que valeu a pena, pelas imagens

  11. Agora vocês já podem consultar o trabalho (ALAGAMENTO E INUNDAÇÃO URBANA) desenvolvido pelo Flávio Altieri no link: http://awe.sm/5a006

    Aproveitem.

  12. Na minha opinião a maior partes dos alagamentos nas ruas de Belém faz parte da falta de educção que o povo tem,boeiros cheios de lixo valas entupidas entulho espalhado pelas calçadas,fora as calçadas imprópria nas ruas .Depois das chuvas vem choro reclamação o povo deveria ter uma escola que podesse alfabetizar comportamento de higiene e cuidados com o meio hambiente.Não adianta o governo gastar com comércial mostranto como devem se comportar e sim uma escola com aulas práticas.Porém depois de formado pagaria multa se caso fosse pego sujando as ruas.Bem essa é minha opinião.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 634 other followers